9 de março de 2017

Benfica deixou-se iludir e acabou goleado

O Benfica saiu da Liga dos Campeões com a maior goleada sofrida na era Rui Vitória (4-0), num jogo em que acabou por pagar caro a ilusão de poder impor-se futebolisticamente ao Borussia de Dortmund.

Previa-se que o afortunado 1-0 da Luz fosse uma vantagem inevitavelmente curta para poder servir de suporte a um plano de jogo assente apenas em tentar defender esse golo de diferença.
Afinal de contas, o Benfica jogava num dos mais temidos palcos europeus contra uma equipa do Borussia de Dortmund reconhecida especialmente pelo invulgar talento ofensivo.

Esperar passar mais 90 minutos a desviar-se milagrosamente das balas, como na primeira mão, seria entregar o destino a uma sorte difícil de repetir.
Nesta época, só o Schalke 04 tinha conseguido sair do Signal Iduna Park com as redes invioladas, em Outubro.
E desde a derrota na Luz, a equipa de Thomas Tuchel tinha entrado numa espiral goleadora que produziu 12 golos em três jogos na Bundesliga.

Para acabar cedo com as dúvidas quanto à impossibilidade de se repetir o cenário da Luz, o Dortmund demorou apenas quatro minutos a anular esse golo de desvantagem.
Fê-lo curiosamente após uma tentativa do Benfica em chegar à área contrária, aproveitando o contragolpe para ganhar um canto no qual Aubameyang mostrou estar sedento para se redimir da noite desastrosa que tivera em Lisboa: o gabonês surgiu ao segundo poste a desviar para a baliza, após falhas de marcação de Samaris (ao primeiro poste, a permitir o desvio de Pulisic) e Nélson Semedo (que deixou fugir o avançado nas suas costas).

Os 20 minutos seguintes pareciam expor a incapacidade do Benfica em discutir a eliminatória jogo pelo jogo.
Abalado pelo golo madrugador, o conjunto de Rui Vitória caía na mesma caricatura futebolística do primeiro jogo, sem capacidade para combinar dois passes na saída de bola para o ataque, com André Almeida, Pizzi e Samaris perdidos no miolo dada a asfixiante pressão germânica.

A boa face do Benfica

Mas, então, uma jogada houve em que os papéis se inverteram: aos 24 minutos, o Benfica travestiu-se de Dortmund e construiu um lance de futebol coletivo em que a bola passou de pé para pé, em progressão, com variações de flanco, até terminar num remate fraco de Cervi no coração da área, após cruzamento de Nélson Semedo.
A partir daqui, o Benfica acreditou que também era possível jogar contra o Dortmund e partiu para uns bons 20 minutos até ao intervalo.

Pizzi assumiu o protagonismo que esta equipa do Benfica lhe exige, Salvio e Nélson Semedo empolgaram-se em animados diálogos com bola pela direita e a equipa de Rui Vitória foi inclinando o tabuleiro para a área de Bürki, chegando ao intervalo com os mesmos remates à baliza do Dortmund: 2-2 (o de Cervi e um cabeceamento de Luisão).

O Benfica recolheu aos balneários com confiança reforçada e encheu ainda mais o peito logo no reinício, quando Cervi voltou a ter nos pés o empate, após mais uma boa ação de Semedo na direita, mas o argentino deslumbrou-se com o momento e demorou o remate, salvo in extremis pelos defesas do Dortmund, que se atravessaram à sua frente.
Foi o canto do cisne para o Benfica.
Iludido pela sensação de poder impor-se futebolisticamente à equipa alemã, o campeão nacional deixou o jogo partir-se de forma perigosa.
Letal mesmo, perceber-se-ia quase de imediato.

Aubameyang e o descalabro

Ederson ainda ameaçou voltar a assombrar o Dortmund, tal como no jogo da Luz, ao negar por três vezes o golo no frente-a-frente com avançados contrários (duas delas em lances anulados por fora de jogo), mas o descalabro defensivo de um Benfica então demasiado desequilibrado seria confirmado pouco depois, com Pulisic e Aubameyang a marcarem dois golos no espaço de três minutos, entre os 59 e os 61.

Sentenciada a eliminatória, apesar das mexidas de Rui Vitória (lançou Jonas, Jiménez e Zivkovic, mas já não havia crença nem organização), sobrou ainda tempo para Aubameyang completar a vingança com o seu terceiro golo da noite, tornando-se o primeiro jogador desde o galês Ian Rush (em 1984, pelo Liverpool) a fazer um hat trick ao Benfica na Taça/Liga dos Campeões.

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